Rodrigo Freitas: Transporte coletivo na Região Metropolitana de BH encolheu e "emburreceu" com o tempo

11/08/2016 | Nossas cidades

Nos anos 90, quem andava de ônibus em Belo Horizonte e Região Metropolitana não tinha o melhor dos mundos, mas contava - por vezes - com ônibus com motor traseiro ou central, cobradores e mais agilidade no trânsito urbano. Cumpre aqui explicar que o veículo com o motor em sua parte de trás gera mais conforto ao usuário do que os "cabritinhos", como são conhecidos por profissionais do volante os carros com motor dianteiro que nada mais são do que uma antiga adaptação de chassis de caminhões "emprestados" aos ônibus. Os cobradores, mesmo que fosse para receberem o vale-transporte de papel, estavam lá para garantir maior rapidez no momento do embarque.

Da década de 90 para cá, muita coisa mudou no Brasil. A melhora da economia e a expansão do crédito fizeram com que o brasileiro passasse a ter mais acesso a bens de consumo - inclusive aos automóveis. O que aconteceu? Muita gente comprou seu carro e as nossas já precárias vias ficaram abarrotadas de veículos com uma ou duas pessoas dentro nos horários de pico. Em qualquer lugar do mundo, o que seria de se esperar? Para evitar que a cidade parasse, esperava-se que o poder público comandasse um maciço investimento em transporte coletivo, mostrando às pessoas que o carro seria uma alternativa melhor à noite e aos fins de semana.

Mas o que fizeram os governos? Construíram viadutos e trincheiras, duplicaram e criaram avenidas... Inauguraram obras que já nasceram com prazo de validade vencido e com tráfego já estrangulado. Afinal, as intervenções apenas ampliavam espaços que eram ocupados por carros e não por ônibus que utilizassem um sistema inteligente. Já falamos disso aqui.

Voltando aos ônibus, o que fizeram as empresas na Região Metropolitana de Belo Horizonte? Em vez de mostrarem que os veículos poderiam ser boas alternativas, elas deixaram de investir. Trocaram veículos com motor traseiro ou central e suspensão a ar pelos famigerados cabritinhos, reduzindo o conforto dos passageiros e inclusive dos motoristas. Em especial, sofreram mais as comunidades da Região Metropolitana de Belo Horizonte, sujeitas a andarem grandes distâncias em veículos não adequados. Basta pensar em quem mora em Ribeirão das Neves, nas imediações da BR-040. São pessoas que moram a 40 km da capital e são submetidas a veículos inadequados.

Junto com isso, as empresas de transporte - com a total conivência de governos ao longo dos anos - passaram a comprar veículos cada vez menores e mais apertados. São os chamados ônibus midi, que carregam quase a mesma quantidade de passageiros do ônibus padron, porém em espaço bem mais reduzido. Chamo a atenção, por exemplo, para a atual linha 2550, que liga a região do bairro Alvorada, em Contagem, ao Centro de BH. Quando ainda era chamada de 1116, essa linha - gerenciada pelo governo do Estado por ser metropolitana - tinha carros mais confortáveis com chassis como o Volvo B58, que carregavam mais passageiros e garantiam menos sofrimento com o pula-pula em cima do asfalto. Hoje, quem se desloca nessa linha convive com o chamados cabritinhos midi - ônibus menores, excludentes e desconfortáveis - mas que têm a incumbência de levar quase o mesmo número de passageiros de anos atrás. Andam cheios a qualquer hora do dia. O quadro de horário chega a ter intervalos de 40 ou 50 minutos em dias de semana!

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Chassis de ônibus regrediram com o passar do tempo na Região Metropolitana de Belo Horizonte

Nos últimos anos, veio a facada final nos já sofridos passageiros. As empresas cortaram os cobradores. Agora, com mais 20% de acréscimo em seus salários - algo em torno R$ 350 mensais -, os motoristas também são encarregados de cobrarem as passagens. Nos ônibus metropolitanos, essa é uma realidade que está para atingir a 100% da frota de quase 3.000 veículos a qualquer momento. Desafio o leitor: pare num ponto de ônibus da avenida Amazonas ou da Via Expressa em BH e observe: você não verá mais cobradores nas linhas. Verá, porém, motoristas cada vez mais estressados com a árdua tarefa de dirigir e cobrar passagens ao mesmo tempo. Pior: verá os profissionais cobrando passagens e guiando ao mesmo tempo, colocando passageiros e outros motoristas em risco ao dividirem sua atenção. Os motoristas alegam que, se não fizerem isso, vão atrasar demais as viagens.

As empresas não falam em quantas demissões de cobradores fizeram nas linhas metropolitanas, responsáveis, por exemplo, pelo transporte de mais de 65% dos passageiros que utilizam ônibus em Contagem. Também não abrem de forma real e verdadeira seus caixas. Os ônibus estão cada vez mais mal conservados. Muitos são antigos, sujos. Há goteiras em alguns. Os que andam as maiores distâncias e deveriam ser os mais adequados são os piores. O passageiro é maltratado todos os dias.

Em Contagem, a Prefeitura também deu passos atrás nos últimos quatro anos ao permitir o fim dos cobradores nas linhas gerenciadas pela Transcon e que circulam apenas dentro dos limites da cidade. O sindicato dos profissionais estima que mais de 2.000 trocadores tenham sido demitidos. Na cidade, as viagens passaram a ficar ainda mais demoradas. Os ônibus, mais lentos. Contagem passou pelo mesmo processo de troca de ônibus - dos melhores e maiores para os menores e piores. As empresas não estão nem aí para os passageiros. Cidades como Betim e Igarapé têm passado por um processo parecido.

Diante de todo esse quadro, nossas administrações municipais e os governadores que passaram pelo Palácio da Liberdade têm agido em prol da minoria. Deixam de fiscalizar, deixam de exigir das empresas o melhor. Fazem obras que privilegiam o transporte individual em detrimento do coletivo. Em um trânsito cada vez mais caótico em que um sistema de ônibus articulado e inteligente muito ajudaria, estamos regredindo. Reduziram o número de viagens, pioraram os ônibus, cortaram os cobradores... Governantes visionários deixariam de lado a aparente queda do interesse do cidadão nos ônibus e aumentariam a oferta. Colocariam para rodar veículos cada vez mais modernos e amplos. Exigiriam o ar condicionado, fundamental para a onda de calor do últimos anos. Criariam cada vez mais faixas exclusivas. Governantes visionários fariam do ônibus um bom mecanismo de transporte e não um fardo para os passageiros. BH e região já não têm um metrô suficiente. Ao menos o sistema de ônibus deveria funcionar.

*Rodrigo Freitas é jornalista e assessor de comunicação da deputada estadual Marília Campos. Foi repórter especial e editor adjunto de Cidades do jornal "O Tempo" e repórter e apresentador das rádios Itatiaia, CBN e BandNews FM.